(Texto escrito propositadamente sem acentuacao, por ser redigido em um iPad)

Esse eh mais um post inspirado por uma pergunta de uma amiga. O primeiro foi sobre o que me questionou Isabela, acerca das fontes de inspiracao que tenho encontrado pelo mundo (leia mais AQUI). Agora escrevo em resposta aa Pamela, para uma pergunta igualmente capiciosa, mas em sentido contrario: quais sao as dificuldades. Ela propria prepara-se para embarcar numa viagem de volta ao mundo e me lancou a questao dia desses, quando leu um post em meu facebook que dizia que Rafael e eu estavamos, literalmente, de pes para o alto, descansando um pouco das ultimas e preparando-nos para as proximas viagens.

20121024-102516.jpg
Assim como Pamela, pesquisei bastante antes de iniciar a aventura. E muito do que lemos — “Foi a melhor decisao de minha vida”, “Foi incrivel”, “Foram os melhores meses/anos” — eh verdade. Mas eh so um lado da verdade. Em geral, contado por quem ja regressou e sob efeito daquele distanciamento que nos reforca na lembranca os acontecimentos felizes, e ameniza os nem tanto.

Entao, me disponho a aqui, na transicao continental que nos leva da Turquia aa Africa do Sul, e ao fim do primeiro terço de nossa expedicao, a compartilhar, alma aberta, as principais dificuldades de se fazer uma volta ao mundo.

Muito me perguntam sobre a saudade de casa, englobando-se ai todos os elementos que essa palavra encerra — os familiares, as comidas, os amigos, o cantinho preferido do sofa, a lingua etc. Ela existe, sem duvida, e eh forte. Alguns dias mais do que em outros, mas esta sempre la. No entanto, em minha experiencia, aquele que se propõe a uma aventura mundial, ja equacionou, antes de tomada a grande decisao, essa questao da saudade. Ela sera sentida, mas nao sofrida. Em tempos de distancias encurtadas pela internet, fica ainda mais facil comunicar-se com todos aqueles que ficaram. No meu caso, a grande saudade nao apaziguada eh de Filo, nossa cachorrinha. Me conforta sabe-la sob os cuidados mais do que adequados de meus pais. Entao, para mim, a saudade nao eh uma das principais dificuldades.

20121024-102709.jpg
Saudades da minha filhotinha.

Os demais itens dos quais poderiamos sentir, e sentimos, falta, sao sobrepujados pela enormidade de novos sabores, linguas e cantinhos que exploramos pelo mundo. Cada cidade, cada pais, cada pessoa em nosso caminho nos adiciona tanto, e nos torna mais flexiveis para lidar com as dificuldades inerentes aos novos aprendizados. Claro que algumas vezes sofremos, estirando ao maximo nossos limites (leia mais AQUI), mas ainda assim, nao vejo ai, tampouco, as grandes dificuldades.

20121024-103151.jpg

20121024-103021.jpg
Vivendo o novo e desafiando os medos: voo de balao na Capaddocia, Turquia. Incrível!

Sao dois, sem mais delongas, os principais desafios que enfrentamos, e para os quais alerto minha querida Pamela e seu marido, e todos os demais interessados em embarcar numa volta ao mundo. Ao primeiro, demos o nome de “excesso de togetherness” e ao segundo “ferias da viagem”.

Emprestei o termo “excesso de togetherness” do livro 82 Charing Crossroad, de Helene Hanft. Depois de passar bons dias seguidos na companhia de um amigo, Helene começa a irritar-se com as manias, o jeito e mesmo com as gentilezas de seu companheiro de viagem. E isso, que eh algo absolutamente normal e natural nas relacoes humanas, ganha proporcoes, digamos, mundiais, numa volta ao mundo. Imagino que o mesmo aconteceria se estivesse viajando com alguem da familia ou uma amiga, mas admito que, na minha situacao de recem-casada, a convivencia 24 horas exponencia as dificuldades que ja seriam esperadas dessa etapa de adaptacao do casal.

A solucao que Rafa e eu encontramos foi adotar, rotineiramente, uma “terceira pessoa” em nosso casamento. Poupem suas fantasias… Nao eh nada disso! Trata-se de ter o habito, a disciplina até, de estarmos, com frequencia, convivendo com outras pessoas. Quem nos mostrou os beneficios dessa pratica, ainda que sem nenhuma intencao para tal, foi o Marcel, amigo que conhecemos pelo couchsurfing e com o qual tivemos gostoso dia de hinking pela Floresta Negra, no sul da Alemanha. Naqueles dias, ja no segundo mes de viagem, nós, o casal, estavamos nos estranhando mais do que o de costume. Passar o dia com o Marcel foi como uma merecida pausa. Tinhamos outros assuntos, outra conversa. Nao precisavamos estar tao ligados ao outro. Foi um grande respiro.

20121024-103557.jpg
Conversando a respeito, reconhecemos o quao dificil eh a convivencia diaria numa aventura como a nossa, e o quanto era importante exercitarmos mais o estar com outros. Uma outra “terceira pessoa” importante ate agora foi minha amiga Priscila, que veio do Brasil passar uns dias de ferias geladas pela Russia e caçar conosco a aurora boreal em terras norueguessas. Foi incrivel ter, por pouco mais de 10 dias, uma nova dinamica em nossos dias, com efeitos restauradores que prolongaram-se mesmo apos sua partida.

20121024-104012.jpg
Agora o segundo desafio. Está aí algo que ninguem vai te perguntar. E que quando voce contar, rir-se-ao, duvidar-te-ao. Chama-se cansaço de viagem. Quando partimos para uma volta ao mundo, um ano sabatico, a ideia generalizada eh que estamos tirando 12 meses de ferias. E a inveja daqueles a quem a legislacao trabalhista garantira apenas um doze avos dessa “mamata” eh elevada a altas potências. Inveja boa, como dizem. Mas nao totalmente justificada, como imaginam.

Eh muito comum, quando regressamos das ferias “normais” nos dizermos “cansados de corpo, mas relaxados mentalmente”. A rotina da pausa anual chega a ser extenuante, pois acordamos cedo, queremos passear, aproveitar, ver tudo, viver tudo. Mas quando a pausa anual vai durar por todo um ano, eh preciso modificar mentes e rotinas. Quando comecamos nossa viagem, nos ja longuiquos Julho e Portugal, tinhamos a furia das ferias. Queriamos sorver cada cantinho de Lisboa. E a cidade nos mostrou, com suas escadarias e sol igualmente inclementes, que nao aguentariamos por muito tempo aquele ritmo.

20121024-105143.jpg
A linda praça do Rossio, em Lisboa. Escadas e sol, impondo desafios e aprendizados aos novos viajantes.
Cerca de tres semanas depois, ja no lindo e frances (redundancia?) Vale do Loire adotamos nossa primeira semana de “ferias da viagem”. Funciona assim: nos assentamos em um cantinho mais caseiro, como um apartamento ou casinha alugados. Ficamos por um pouco mais de dias do que normalmente ficariamos. Ai buscamos colocar em pratica todos aqueles afazeres dos quais fugimos quando no dia-a-dia dito normal: cozinhar, arrumar a casa, lavar a roupa. E simplesmente nao visitamos! Nao vamos a lugares novos ou pontos turisticos. Andamos de bicicleta, ficamos no jardim ou aa beira da piscina, atualizamos nossa vida virtual (Facebook, emails etc), falamos com familia e amigos. Enfim, tentamos ao maximo trazer de volta um pouco da rotina e estabilidade a que, imagina-se, com alguma verdade na mesma medida de algum erro, escapávamos quando partimos para a volta ao mundo.

20121024-104639.jpg
Nossa casinha no vale dos castelos.

Corpo e cerebro precisam de ferias, e tambem de ferias das ferias. O primeiro precisa de repouso fisico da carga de caminhadas, carregacao da mochila, sobes e desces. Tambem precisa adaptar-se, quase que semanalmente, a novas culinarias, aas bacterias locais, aas diferentes camas e aos diversos banheiros. Ja o segundo, o cerebro, esse precisa de tempo para processar e armazenar os novos conhecimentos. Nesse aspecto, a rotina eh um oasis, mesmo no universos repleto de estimulos das grandes metropoles. Sabemos os caminhos, as linguas, as pessoas. Quando tudo isso e mais muito sao novos, a mente extenua-se. E a neurociencia so vem confirmar o que as maes ja sabiam: descansar e dormir sao fundamentais ao aprendizado. Como o aprendizado eh, acima de tudo, a grande razao dessa nossa aventura, temos tido tambem disciplina em adotar periodos de ferias da viagem. O proximo eh nessa semana, quando abrimos mao de viajar pela famosa Garden Route sul-africana, para pousarmos por alguns dias na capital Johannesrburgo, na casa de uma amiga aa qual desobrigamos de quaisquer esforcos turísticos para com esses estranhos hospedes que so querem mesmo eh lavar um pouco de louça.

20121024-105613.jpg
Rafa dirigindo, pela direita!, a caminho de nosso refugio sul-africano.

O lado B da volta ao mundo
Tagged on:                                                 

3 thoughts on “O lado B da volta ao mundo

  • January 9, 2013 at 3:44 pm
    Permalink

    MP, muito ricas e valiosas as suas reflexões! Além de deliciosamente expressas!
    Valem um caroninha nessa viagem!
    Grande beijo, votos de sempre boa viagem!

    Reply
  • January 24, 2013 at 11:46 am
    Permalink

    Querida,
    Obrigada pelo post!!! As informações foram muito úteis!!
    Buscarei fazer grandes amigos nsta viagem para não nos estressarmos um com o outro. E também já reservei alguns dias para as férias das ferias….Rsrsrsrs
    Saudades. Beijos

    Reply
  • Pingback: HSM World Business Inspiration » Retratos do Leste – parte 3 (ultima)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *