(Texto escrito propositadamente sem acentuacao, por ser redigido em um iPad)

E aqui vamos nos, continuando nossa viagem ao Leste Europeu, que comecei a contar para voces no ultimo post (clique AQUI).

Depois de passar por Republica Tcheca (Praga) e Hungria (Budapeste e a pequenina e encantadora Eger), mergulhamos mais fundo no leste europeu: Ucrania.

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Nas fotos: Retratos de Lviv, Ucrania.

Iniciamos nossa expedicao para a desconhecida e misteriosa Ucrania por meio de uma longuissima viagem de trem, saindo de Eger, no nordeste hungaro, com destino a Lviv, no noroeste ucraniano. Para os cidadaos dessa parte do mundo, viajar de trem por 15, 20 horas eh algo absolutamente normal. Percebi como somos diferentes nesse aspecto. Afinal, pela indisponibilidade de trens no Brasil e pelo desconforto e risco das longas viagens em onibus, cresci em um cenario onde as longas viagens ficavam reservadas para o sempre caro aviao. Concordo que a aviacao ficou mais acessivel no Brasil do que nas decadas passadas, mas ainda eh ridiculamente cara e complexa quando comparada aos servicos oferecidos pelas companhias low-cost em outras partes do mundo. Ha ai um enorme campo para inovacoes que, por favor, possam ir alem de simplesmente espremer os confortos ao passageiro.

Voltando ao trem, esse eh o meio de transporte predominante no leste europeu, cobrindo enormes distancias a precos bem baixos. Nos meses anteriores, em outros paises da Europa, haviamos nos acostumado a viajar por meio ferroviario, mas ainda nao haviamos encarado um trem noturno. Ah, surpresas do leste…Diferentemente dos trens franceses ou suiços, modernos, com ar condicionado, wifi e outros confortos, os trens aqui, especialmente esse, nos levaram a um mundo, digamos, mais rustico. Acho que as imagens retratam melhor do que minhas palavras:

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Com muita dificuldade de comunicacao, e contando com a ajuda de mais pessoas maravilhosas em nosso caminho, conseguimos comprar as passagens para uma viagem que duraria nove horas. Para nosso susto, depois de entramos no trem e descobrirmos as cabines abertas e dispostas em um grande corredor, nossos tickets eram para as camas superiores. Ficamos bem perdidos com como agir nesse microcosmo novo. Esperamos mais passageiros chegarem e fomos imitando: havia um colchao extra para colocar nas caminhas, roupa de cama, travesseiro. Os mais escolados ja estavam rapidinho com suas camas montadas, enquanto nós pelejavamos para saber como nos encaixariamos naquela cama superior em que nao era sequer possivel ficar sentados. Faz parte.

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Na foto, observem acima da cabeca do Rafa: essa era uma de nossas camas, nao embaixo, onde ele esta sentado. Observem o curto espaco que separa a caminha do teto.

Porem, esse nao era o primeiro trem que pagavamos naquele dia. Era mais propriamente o terceiro. Alem disso, na tentativa de gastar nosso dinheiro hungaro e nao “morrer” com uma moeda que nao seria mais util, haviamos comido apenas sanduiches e refrigerantes. E nao tinhamos tido possibilidade de sacar dinheiro ucraniano. Resumo da historia: haviamos viajado o dia inteiro, estavamos exaustos, mal-humorados, com fome e sede. Essa ultima, a que mais me incomodava. Descobri que havia algum tipo de servico de bordo, mas nao entendia direito como funcionava. Apenas via uma movimentacao e sentia o cheiro de comida – depois descobrimos que voce pode trazer sua comida e bebida, e a equipe do trem provê agua quente para seu cha ou sopa.

Vi que havia garrafas de agua e tentei me comunicar com a atendente para comprar uma. Naquela hora, a agua havia se tornado para mim um simbolo do minimo de dignidade humana que eu ainda esperava ter. Nao tendo dinheiro local, ela me disse que eu poderia usar euros. Ela me disse eh meu modo de dizer, pois nossa comunicacao era absolutamente truncada e mimicada. Feliz da vida, extendi minha moeda de um euro, que ela recusou. Ela me disse algo sobre dez euros! Me senti perdida e explorada. Mas eu tambem nao tinha dez euros. Estavamos realmente despreparados. Desisti. Escalei para minha caminha e comecei a chorar! Choro sentido, quase de criança. Me sentia miseravel, incapacitada, sem o minimo de dignidade humana.

Logo volta a atendente, trazendo uma passageira-interprete. Eu, nao contendo as lagrimas, expliquei que so queria uma agua. Aí ela me fez entender que a funcionaria havia pedido 10 euros porque eh uma quantia que ela consegue trocar na casa de cambio. Se eu lhe desse um euro, ela acabaria por “morrer” com esse dinheiro. E que ela, obviamente, me daria o troco em moeda ucraniana. De qualquer forma, nao tinhamos mesmo uma nota de euro. Entao, o passageiro-anjo da caminha abaixo da minha, aceitou minha moeda e pagou pela minha agua. Bebi, deite e dormi o sono dos justos, dignos e hidratados.

Chegamos de madrugada na ferroviaria de Lviv. Nao tinhamos hotel reservado, nem telefone, nem internet para buscar uma hospedagem. Pela primeira vez vislumbrei a possibilidade concreta de dormirmos no banco da estacao. Havia um hotel na propria estacao, mas estava lotado. A senhorinha que nos atendeu, sem falar um pingo de ingles, conseguiu captar nossa situacao, e nos arranjou um hotel no centro da cidade. Pouco depois, despencamos na cama fresquinha, absolutamente exauridos, mas com aquela satisfacaozinha interna de termos vivido e sobrevivido a mais uma aventura em nossa volta ao mundo.

Pois eh, quando falei sobre o quanto essa viagem tem expandido meus limites (clique AQUI) era basicamente disso que eu estava falando: das experiencias que nos removem totalmente da zona de conforto, que nos expoem a nos mesmos, como um espelho de sombra e luz, que mostra o pouco que somos, mas tambem o muito que podemos ser.

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As fronteiras de um novo país são também as fronteiras de um novo “eu”.

Retratos do Leste – Parte 2
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