(Texto escrito propositadamente sem acentuacao, por ser redigido em um iPad)

No post anterior dessa serie sobre o Leste Europeu (veja a parte I AQUI e a parte II AQUI), compartilhei a aventura que vivemos na viagem de trem rumo aa Ucrania. Se me perguntarem se valeu a pena, respondo com palavras do Pessoa: “Tudo vale a pela se a alma nao eh pequena”. Sim, valeu a pena. Encontramos em Lviv uma linda cidade, com ares de Paris, colorida e historica. Vimos pequenas curiosidades:

20121222-164016.jpg Na Ucrania, para conferir o peso ganho ate agora na viagem, so assim mesmo.

20121222-170414.jpg Um museu de ideias em Lviv?! Inspirador.

20121222-165643.jpg Que tal um peixe fresquinho? Eh vendido assim, nadando em uma caixa d’agua no mercado livre.

Exploramos sua arquitetura, historia e culinaria:

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20121222-165632.jpg Foi nessa feira de livros que comprei um de meus “companheiros de viagem” (leia mais AQUI)

20121222-164208.jpg As cores e os sabores do outono ucraniano.

E descobrimos um novo alfabeto!

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Desde o inicio da viagem a essa parte do velho continente, comecamos a nos deparar com mais dificuldades linguisticas. Pela primeira vez, encontramos letras e simbolos estranhos aa nossa gramatica.

Mas foi na Ucrania que “a coisa apertou”! Foi la que conhecemos o afabeto cirilico. Nao so as palavras sao diferentes, mas as letras sao outras. Surpresas da nossa ignorancia ocidentalizada que acredita que coisas basicas, como o alfabeto, sao padrao-mundial. Se ha algo que essa viagem esta nos mostrando de forma cristalina, eh que nao ha padroes. E, assim como na genetica, eh a diversidade a forca e a riqueza da cultura humana nesse planeta.

O alfabeto cirilico eh tratado com orgulho e respeito pelos cidadaos. Mas, para nos, viajantes, apresenta uma grande dificuldade. Sequer podiamos inventar pronuncias para o que estavamos lendo.

20121222-164830.jpg Em Praga ainda podiamos tentar adivinhar a pronuncia, mas com o alfabeto cirilico, nao era mais possivel.

O esforco mental eh tremendo, considerando-se ainda a baixa penetracao do conhecimento da lingua inglesa entre a populacao. Essa vivencia me fez refletir sobre como sera a recepcao aos turistas estrangeiros quando dos eventos esportivos que nos esperam no Brasil nos proximos anos. Percebo uma IMENSA oportunidade de negocios para as ja numerosas escolas de idiomas que temos nos pais, e para as empresas que quiserem alavancar seus negocios na Copa e na Olimpiada. Sei que nao estou falando nenhuma novidade, mas viver na pele as dificuldades dos viajantes em paises que nao estao preparados para recebe-los reforcou minha percepcao.

Depois de explorar Lviv, fomos, de trem, claro, para Kiev, capital ucraniana. Foi la que conheci a Catedral de Santa Sofia, a mais linda que vi em toda nossa viagem.

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E foi onde descobri uma terra de contrastes: de um lado a beleza que o ser humano eh capaz de criar, sobre a qual ja falei no post sobre inspiracao (clique AQUI); do outro a propria natureza humana, as vezes tao dura e crua. Lidar com o cidacao do leste europeu foi um desafio para nos, brasileiros, comunicativos, simpaticos por natureza. O povo la eh bastante fechado, rude, quase nao sorri ao te atender, nao ha, em geral, a boa-vontade de ir alem e ajudar aos viajantes. Segundo me disseram os proprios ucranianos, ja foi bem pior, e esse traço eh resquicio dos tempos comunista e de uma sociedade que ainda nao confia em suas instituicoes.

A impressao que me ficou, sem pretender uma profunda analise socio-politica para a qual nao sou competente, eh que a repressao do comunismo eh mais lancinante do que a de outros regimes. Sem criticas aas intencoes, mas na realidade a execucao de um programa de governo comunista nao fugiu, nesses paises, daquela implementada por outros regimes – leia:se: repressao, perseguicao, mortes, sofrimento. No entanto, quando o povo eh oprimido pelo proprio povo no poder, fica um sentimento de traicao. Ser oprimido pelos militares ou pelo rei ou pelos colonizadores eh uma coisa. Eles sao “os outros”. Mas quando o povo sobe ao poder e de la passa a oprimir seus iguais, ai a coisa muda de figura.

Ainda assim, encontro essas explicacoes, mas nao justificativas para o mau-humor popular. Disse-me uma ucraniana que se trata de reflexos da pobreza da populacao. Com um esquisito orgulho, contei-lhe que nosso povo brasileiro eh tambem bastante pobre, mas nao fica de cara fechada.

De qualquer forma, o aprendizado que ficou eh entender que essa eh uma caracteristica do cidadao do leste e que nao estamos nessa expedicao para jugar, criticar ou mudar os outros povos, mas sim aprender com eles e sobre eles.

Seguindo viagem, fomos da Ucrania para a Russia. La ganhamos a companhia de nossa querida amiga Priscila Novaes, que teve o importante papel de ser “a terceira pessoa em nosso casamento” (nao fantasie, leia mais AQUI). Alem, eh claro, de uma excelente companhia de viagem.

Na terra dos czares, conhecemos Moscow e Sao Petersburgo. Ambas cidades lindas, grandiosas, historicas, cada qual em seu momento ja tendo servido como capital do pais, com sinais e cicatrizes de uma vida repleta de guerras, conflitos e ressurgimentos.

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Beleza arrasadora da arquitetura das igrejas ortodoxas

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Nos canais de Sao Petersburgo, a Veneza do Norte

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Cultura e fé, no coracao do Kremlin, a sede do governo Russo.

A Russia nos surpreendeu muito, positivamente. Ao menos nessas duas cidades, encontramos um mix cultural gigantesco. Influencias diversas se combinam na culinaria, com muita presenca asiatica e norte-americana. O mais dificil foi encontrar comida russa tradicional! Para falar a verdade, em todo o leste, a comida nao eh um ponto alto de destaque. A cozinha dessa regiao, incluindo ai a russa, eh bastante afetada pela historia de guerras e invernos rigorosos. Assim, a base sao carnes, embutidos, batatas e vegetais cozidos. Nao ha o frescor ou tempero da culinaria mediterranea. Para trazer um pouco de sabor, usam MUITO a erva dill (que tambem conhecemos como endro). Em tudo, ate na batata-frita, la estao as folhas da ervinha. E para acompanhar, agua mineral, em geral, eh servida com gas. Eh dificil descobrir o codigo de cores das tampinhas de garrafa de agua que indica a dosagem de gas. Pequenos detalhes, que sao grandes aprendizados.

Por outro lado, se a cozinha nao empolgou, a tecnologia sim. Foi na Russia que encontramos a melhor e maior disponibilidade de wi-fi gratuito em toda a viagem ate agora (ja/13). Em todos os restaurantes, bares, casas noturnas, cafes, museus, trens, etc, havia sinal de wi-fi. Uma boa surpresa, para derrubar muros de preconceito.

Empolgou tambem a riqueza cultural russa. Teatros, que nao nos arriscamos a assistir por obvia incapacidade linguistica; museus, como o incrivel e gigantesco Hermitage.

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Pri, em frente ao imponente museu Hermitage. Pode-se gastar varios dias explorando sua colecao.

Ah, e, claro, o ballet. Fomos assistir a um espetaculo no Bolshoi, a principal casa de ballet do mundo. Nao foi so a nossa amiga bailarina Priscila que se emocionou. Eu fiquei encantada com a beleza e a leveza daquelas borboletas de diamante. Beleza e leveza forjadas em muito esforco, dedicacao, suor, lagrimas e, literalmente, sangue. Mais uma vez a capacidade humana atinge seu apice e nos mostra que sempre podemos mais e melhor. Nao eh apenas um espetaculo artistico, eh uma licao.

E foi assim, com muitos novos conhecimentos e muito menos preconceitos que nos despedimos do Leste Europeu, apos um mes de aventuras e experiencias, com destino aos paises nordicos e aas luzes dancantes da aurora boreal. Mas isso eh assunto para outro post.

Retratos do Leste – parte 3 (ultima)
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